OSSÁRIO

Abr 18, 2026 | Laboratório

Na Casa Fernando Pessoa, no dia 21 de setembro de 2025, Rui Nunes falou do meu OSSÁRIO:

“A principal característica da poesia de José Rui Teixeira é o que Kierkegaard chama o confronto com Deus. Sem desespero não se entra na fé e com desespero não se permanece nela. Esta espécie de aporia é brutal na poesia de José Rui Teixeira, porque – contrariamente à mística tradicional, em que só há um percurso, que é o do homem para Deus – nela há a deflagração do sentido usual da palavra Deus, que gera múltiplos caminhos. Através dessa deflagração, o mundo entra na escrita e é essa entrada, com a sua violência, que produz uma espécie de sismo teológico, ou seja: o estilhaçamento do signo. A propósito disto, lembro-me de Eckhart, num sermão poético sobre o olho de Deus: o olho com que eu vejo Deus é o mesmo olho com que ele me vê a mim. Há aqui uma perturbação quase herética da relação do homem com Deus, um nevoeiro luminoso que esbate todas as fronteiras. […] Aquilo que, para mim, é extremamente interessante é o produto de um conflito nunca ultrapassado: o da crença como um estado de não-resolução. E, no caso da poesia de José Rui Teixeira, essa relação não resolvida nasce não só do confronto com Deus, mas também – ou principalmente – do confronto de uma ideia de Deus com uma ideia de mundo. […] José Rui Teixeira é o que Eduardo Lourenço diz ser Kierkegaard: um espião de Deus. […] Em alguma poesia mística, o que está presente é a desvalorização da queda e o êxtase da ascensão. Mas na poesia de José Rui Teixeira, pelo contrário, o que está presente é a assunção inequívoca da queda, o negativo – no sentido fotográfico do termo. E conhece-se a profunda intimidade do negativo e do positivo ou, neste caso específico, da queda e da ascensão. A queda não é uma etapa, mas um estado de irresolução. […] É esse o desespero de que fala Kierkegaard: a suspeita nunca ultrapassada da impossibilidade de saber se serei ou não salvo, faça eu o que fizer. E esse sentimento, tantas vezes inscrito nos poemas de José Rui Teixeira, faz com que seja um poeta kierkegaardiano, num certo sentido talvez até mais kierkegaardiano do que o próprio Kierkegaard. Deus está tão próximo que quase o podemos tocar e tão afastado que quase desaparece: vive-se o drama de uma proximidade que não responde e de um afastamento que incessantemente interrogamos.”

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