Se é possível escrever uma autopsicografia quase heterodiegética, talvez seja possível dar um sentido autodiegético à consciência da condição de poeta ou apenas a um itinerário bibliográfico.
Comecei a escrever poesia no início dos anos 90, entre leituras e experiências que me permitiram definir as feições sintáticas e os rudimentos do meu universo semântico e de uma gramática íntima.
Considero Para morrer [Quasi Edições, 2004] o meu primeiro livro de poesia. Seguiram-se, com a mesma chancela, O fogo e outros utensílios da luz [2005] e Oráculo [2006]. Estes três livros constituem, no essencial, o primeiro ciclo da minha obra poética.
Num processo que situo entre a reescrita e a definição de um “corpus” poético, antologiei a minha poesia pela primeira vez 2009: Diáspora [a designação de “poesia reunida” resultou da renúncia dos poemas excluídos dessa edição].
Diáspora teve três reedições. A última, em 2017, coincidiu com a publicação de um novo livro: Antípoda [Casa Mãe], livro que resultou da amizade e cumplicidade com o Valter Hugo Mãe.
Passados dois anos, o Valter Hugo Mãe assumiu a curadoria de uma coleção de poesia – Elogio da Sombra – na Porto Editora e inaugurou-a com Autópsia [poesia reunida]. Aí se organizam dois ciclos da minha obra poética: “Diáspora” [2003-2008] e “Antípoda” [2013-2019]. Nesse contexto, Helena Teixeira da Silva escreveu no Jornal de Notícias: “Este ano, a Porto Editora lançou a coleção Elogio da Sombra, coordenada pelo escritor Valter Hugo Mãe. Fisicamente, a edição não podia ser mais depurada e bonita. Mas o que conta são os autores escolhidos. Entre a meia dúzia já publicada […], vale mesmo a pena reter a reunião de poesia do teólogo e poeta portuense José Rui Teixeira. Autópsia é uma antologia assombrosa. E tudo o que sobre ela pudesse dizer-se seria sempre de menos”.
Entre 2019 e 2021, escrevi alguns poemas que integrei no ciclo de “Antípoda” aquando da edição de Como um ofício [Porto, Officium Lectionis, 2021].
No outono de 2021, escrevi o primeiro poema de Habeas corpus [2022]. E passado um ano escrevi o primeiro poema de um processo que culminou na edição de Hitoritabi [2024]. Este livro, prefaciado pelo Valter Hugo Mãe, foi editado em Espanha [Bilbao, El Gallo de Oro, 2025], traduzido pelo Martín López-Vega e prefaciado pela Chus Pato, no qual se lê: “La infancia es la edad en la que, aún sin tener uso de la razón, determinamos como afrontar la vida. Hay niños, hay niñas que optan por no oponer resistencia a lo que venga, sea la felicidad o sea la desdicha. Parecen pasivos; nada más equivocado. Estudian la potencia y sus múltiples posibilidades para llegar o no llegar a la realización de un acto. Con el tiempo esta concentración deviene carácter. Desobedecen dulcemente, es decir, no siempre hacen lo que se espera que hagan. Sus acciones provocan estupor y es la causa por la que no siempre son castigados.
Nada saben del ángel de la historia –aquel que desea recomponer la catástrofe y es tal el viento que sopla desde el paraíso que nunca es capaz de detener ni la barbarie ni la belleza–. ¿Deberíamos preocuparnos por estos niños, por estas niñas? En absoluto. El resultado de lo que perciben nunca es para ellos lo suficientemente bárbaro o hermoso. Si el niño se decide por el poema, entonces quizás su nombre coincida con el del autor de este libro”.
Se Hitoritabi resultou de um processo complexo, um novo conjunto de poemas foi sendo escrito desde meados de 2024, tendo resultado na edição de Ossário, em 2025, com fotografias do António Júlio Duarte.
Em setembro de 2025, reuni a minha poesia em Hora intermédia, edição dividida em três partes: “Tércia” [os setenta poemas de “Diáspora” (2003-2008)], “Sexta” [os setenta poemas de “Antípoda” (2013-2021)] e “Noa” [os 140 poemas Habeas corpus, Hitoritabi e Ossário (2021-2025)].
Em 2026, esses 280 poemas foram reorganizados numa nova edição da poesia que escrevi desde 2003: Luto, em dois volumes. No primeiro, os ciclos de “Diáspora” [2003-2008] e “Antípoda” [2013-2019]; e no segundo, os três últimos livros: Habeas corpus [2022], Hitoritabi [2024] e Ossário [2025].
Também em 2026, publiquei um novo livro de poesia: Sismo, com imagética do Tomás Guerrero e posfácio do Rui Nunes. Juntamente com Hitoritabi [2024] e Ossário [2025], Sismo completa aquilo que eu defino como “ciclo de Uzume”.
Entretanto, o João Pedro Porto organizou e prefaciou uma antologia da minha poesia: Queda, edição bilingue português-espanhol, com traduções do Elm Puig, do Martín López-Vega, da Miriam Reyes e do Jordi Cerdà. Este livro tem uma capa do Pep Carrió e um texto do Héctor Abad Faciolince: “La poesía de José Rui Teixeira pertenece al extraño género [Juan de la Cruz, Emmanuel Swedenborg] de las santas herejías de los místicos. Por eso leerla es como hundirse, por caminos heterodoxos, en las palpitaciones y sospechas más increíbles, ya que traicionan y contradicen de un modo muy sutil las más afianzadas creencias de nuestra razón”.
