POESIA

Se é possível escrever uma autopsicografia quase heterodiegética, talvez seja possível dar um sentido autodiegético à consciência da condição de poeta… ou apenas a um itinerário bibliográfico.

A minha juvenília aconteceu durante os anos 90, com leituras, diálogos e experiências que permitiram definir feições sintáticas e os rudimentos de um universo semântico e de uma gramática. Quando publiquei Vestígios, em 2000 [numa edição do Centro Catecumenal da Igreja do Porto que é praticamente uma edição de autor], não tinha a pretensão de publicar um livro de poesia em sentido estritamente literário, mas um conjunto de textos com sensibilidade poética, existencialmente muito situado. A morte da minha mãe, pouco antes da sua publicação, nimbou este livro de um sentido memorial. Enfim: um conteúdo frágil num objeto belíssimo.

Passado um ano, enviei às Quasi Edições um conjunto de novos poemas. Confesso que já tinha, então, algumas pretensões literárias. As Quasi Edições impunham-se no meio editorial como um projeto com uma certa irreverência, afirmando-se numa periferia cultural e arriscando reunir aquilo que parecia ser uma comunidade de jovens poetas. Foi o Valter Hugo Mãe que acolheu o meu segundo livro: Quando o verão acabar, em 2002. Sinto que foi um voto de confiança, não tanto nesse livro em concreto, mas no poeta que aí timidamente assomava. Quando passou o normal entusiasmo da sua publicação, apercebi-me que era ainda um livro frágil.

Considero Para morrer [Quasi Edições, 2004] o meu primeiro livro de poesia. Escrevi-o por uma necessidade combinada de escrevê-lo e de corresponder ao voto de confiança do Valter. O Fernando Guimarães acolheu-o no Jornal de Letras e o Pedro Sena-Lino, no «Mil Folhas» [suplemento literário do jornal Público], considerou-o um dos melhores livros de poesia de 2004.

Com alguns poemas escritos nos intervalos de Para morrer, publiquei Melopeia… uma experiência na condição de editor: nasceu assim, em 2004, o projeto editorial Cosmorama. Nos dois anos seguintes, publiquei três livros: O fogo e outros utensílios da luz [Quasi Edições, 2005], Assim na terra [Cosmorama, 2005] e Oráculo [Quasi Edições, 2006].

Para morrer [2004], O fogo e outros utensílios da luz [2005] e Oráculo [2006] constituem, no essencial, o primeiro ciclo da minha obra poética. Num processo que situo entre a reescrita e a definição de um “corpus” poético, antologiei a minha poesia em Diáspora, em 2009. A designação de “poesia reunida” resultou da renúncia dos poemas excluídos dessa edição.

Entre 2008 e 2013, não escrevi poesia. Durante esse período, dediquei-me fundamentalmente ao meu projeto de doutoramento em Literatura, na FLUP, numa fase muito intensa nos contextos familiares e profissionais. Regressei à poesia em 2013, dez anos depois dos primeiros poemas de Para morrer. Esse regresso coincidiu com a publicação da minha dissertação de doutoramento e da 3.ª edição de Diáspora [que tinha já sido reeditada em 2011]; coincidiu também com a minha nomeação para a direção da Cátedra Poesia e Transcendência, na UCP Porto.

Um primeiro conjunto de poemas desse período foi reunido em Antípoda, livro publicado pelo Valter Hugo Mãe, com a chancela Casa Mãe, em 2017. Nesse mesmo ano, publiquei a 4.ª edição de Diáspora.

Em 2019, o Valter assumiu a curadoria de uma coleção de poesia na Porto Editora e inaugurou-a com Autópsia [poesia reunida]. Aí se organizam dois ciclos da minha obra poética: DIÁSPORA [2003-2008] e ANTÍPODA [2013-2019]. Nesse contexto, Helena Teixeira da Silva escreveu no Jornal de Notícias: «Este ano, a Porto Editora lançou a coleção Elogio da Sombra, coordenada pelo escritor Valter Hugo Mãe. Fisicamente, a edição não podia ser mais depurada e bonita. Mas o que conta são os autores escolhidos. Entre a meia dúzia já publicada […], vale mesmo a pena reter a reunião de poesia do teólogo e poeta portuense José Rui Teixeira. Autópsia é uma antologia assombrosa. E tudo o que sobre ela pudesse dizer-se seria sempre de menos».

Entre 2019 e 2021, escrevi alguns poemas que integrei no ciclo de ANTÍPODA aquando da edição de Como um ofício [Officium Lectionis, 2021].

No outono de 2021, escrevi o primeiro poema de Habeas corpus [2022]. No outono de 2022, escrevi o primeiro poema de um processo com dois apeadeiros editoriais: Uzume e Aware, que culminou na edição de Hitoritabi [2024]. Este livro, prefaciado pelo Valter Hugo Mãe, foi editado em Espanha [Bilbao, El Gallo de Oro, 2025], traduzido pelo Martín López-Vega e prefaciado pela Chus Pato. E se Hitoritabi resultou de um processo complexo, um novo conjunto de poemas foi sendo escrito desde meados de 2024, tendo resultado na edição de Ossário, em 2025.

Em setembro de 2025, passados 25 anos da edição de Vestígios, foi novamente reunida a minha poesia, em Hora intermédia, edição dividida em três partes: TÉRCIA [os setenta poemas de DIÁSPORA (2003-2008)], SEXTA [os setenta poemas de ANTÍPODA (2013-2021)] e NOA [os 140 poemas Habeas corpus, Hitoritabi e Ossário (2021-2025)].

 

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