Talvez seja apenas o expectável: o que somos, o que vivemos, as teceduras e entreteceduras do quotidiano – esse organismo compósito que, com o tempo, tornamos inteligível num cosmorama de acontecimentos, lugares, experiências, leituras, pessoas… sedimentos que acabam por assomar na superfície de um poema ou de uma memória vaga que ocasionalmente nos visite.
Imagino uma biografia escrita a partir das estantes da biblioteca do biografado; escrita a partir dos seus encontros, desencontros e reencontros; dos objetos que – entre cuidados e descuidos – se tornaram referenciais, sobrevivendo ao tempo, humanizando-o, legitimando a narrativa… na medida em que cada narrativa é sempre causa e efeito de um qualquer processo de legitimação.
Talvez seja apenas o expectável: onde e quando nasci, o que quis ser e o que fui ou não fui, o que quis fazer e o que fiz ou não fiz, o que esqueci e o que a memória sempre me devolve. Os vivos e os mortos, as preferências inexplicáveis – melancia, Kierkegaard, os etruscos, o Chiostro del Bramante – e os lugares mais improváveis… certas ruas, apeadeiros, ilhas, estuários, livros e istmos, outras fronteiras.
Imagino uma biografia escrita a partir de pessoas ou de episódios concretos: partilhou o dojo com Domingos Silva e um táxi com Vargas Llosa; escutou pela primeira vez um poema de Herberto Helder na voz de Daniel Faria; conheceu Rui Nunes uns dias depois da morte de Leonel Oliveira… e, dois meses antes, bebeu uma cerveja com Yann Tirsen na ilha de Höedic; reconheceu-se numa escultura de Karin Somers há muitos anos.
Talvez seja apenas o expectável: não lhe escaparam os textos seminais de várias tradições e ocorreu-lhe uma narrativa de Galeano num templo budista nos arredores de Tokushima. Discutiu a natureza da esfinge com Eduardo Lourenço, mas não chegou a visitar a oracular Dalila Pereira da Costa. Trocou cartas de amor com Maria Eulália de Macedo e conspirou sobre o invisível com Álvaro Siza e Manoel de Oliveira.
Imagino uma biografia escrita a partir de geografias difusas: nos Caminhos de Santiago, em Barcelona ou Roma, Paris, Buenos Aires, Rio de Janeiro ou Tóquio. Uma biografia escrita a partir de topografias íntimas: entre a minha biblioteca e uma ruína talaiótica, em Maiorca, ou a sepultura de Ramos Sucre no antigo cemitério de Cumaná… certos lugares que, tão longe, me devolvem a casa.
Talvez só me reste o expectável: os fantasmas mais queridos – António Nobre, Teixeira de Pascoaes, Guilherme de Faria… alguns outros – e os livros… outros silêncios, outras paisagens. Bach, Caravaggio, Shakespeare, os meus bonsais. O que penso, o que leio, o que escrevo; as pessoas que amo. Camões, Sigur Rós, Dostoiévski, um terraço mediterrânico, um jardim japonês.
Só depois o que ainda não se sabe: pode ser um parágrafo do João Pedro Porto, a mão que desenha o silêncio da Ana Aragão, os totens do Paulo Neves, outros universos íntimos… Valter Hugo Mãe, Tomás Guerrero, um apeadeiro ou uma metáfora para adiar a morte, outro fantasma: o Pedro Gastão Mesnier. Ainda o expectável: ser espião de Deus e olhar os lírios do campo.
