A Cosmorama publicou há um ano o último livro de Rui Nunes: A margem de um livro.

“um livro de desperdícios:
escamas de peixe, jornais rasgados, cascas de laranja,
um trapo azul, caroços,
(na mama de Délia apareceu um caroço. Que foi crescendo.)
um frigorífico velho, um rato morto.
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Há nomes que não encontram: espectros. De um Deus que deixou a meio a criação. Escreve-se o que falta. Ou. O que sobra
:
eis a intimidade que reconheço (que me reconhece). Indefesa, indiferente, deixa-me estar. E, no entanto, expulsa. Expulsa-me continuamente do que escrevo.”

RUI NUNES nasceu em Lisboa, em 1945.
Licenciou-se em Filosofia na Universidade de Lisboa.
É autor de uma obra impressiva, em permanente processo de ruptura e com uma profunda liberdade em relação aos reducionismos inerentes à compartimentação das categorias, dos géneros e das escolas literárias. Em mais de vinte livros, desde a década de 60, Rui Nunes imprime uma poesia densa e áspera que assoma filosoficamente numa ficção que sacrifica a tessitura da narrativa tradicional à acuidade de um olhar primitivo. E essa não é a receita para um autor canónico; é o caminho invariavelmente solitário de um autor singular.

Pintura: ‘Perro semihundido’ [1819-1823] | Francisco de Goya